Solidão na era digital: o silêncio psíquico por trás das redes sociais
Por Daniel Nascimento - Psicólogo CRP 03/32350.
Vivemos conectados o tempo todo. Basta um toque na tela para enviar mensagens, curtir fotos, assistir vídeos, fazer novas amizades. Nunca estivemos tão próximos — e, paradoxalmente, nunca nos sentimos tão sós. Como a psicanálise compreende esse fenômeno da solidão em plena era digital?
Nas redes sociais, o sujeito é convidado a construir uma imagem idealizada de si. A vida exibida em posts e stories é, muitas vezes, cuidadosamente editada, focando em momentos de sucesso, felicidade e realização. Esse movimento, no entanto, muitas vezes gera uma desconexão interna: o eu real, com suas fragilidades e angústias, é silenciado em nome de uma performance para o Outro.
Sigmund Freud já nos ensinava que o mal-estar na cultura é inevitável. A promessa de satisfação plena nunca se realiza. Em um ambiente digital, essa promessa é ainda mais intensa: tudo parece estar a um clique de distância, mas o que se obtém é, frequentemente, um vazio. Curtidas, comentários e visualizações aliviam momentaneamente o sentimento de solidão, mas logo perdem o efeito, exigindo mais exposição, mais interação, mais validação.
Jacques Lacan aprofunda essa análise ao afirmar que o desejo é o desejo do Outro. No universo das redes, buscamos ser desejados — ser vistos, reconhecidos, amados. Mas essa busca, muitas vezes, acarreta um efeito colateral: ao moldar nossa identidade para agradar o olhar do Outro, nos distanciamos de nossa verdade subjetiva.
A solidão contemporânea, portanto, não é apenas falta de companhia física, mas uma experiência de desamparo psíquico: uma desconexão de si mesmo. A sensação de estar rodeado de gente, mas ainda assim se sentir invisível, não é mera coincidência — é um sintoma.
A psicanálise oferece um espaço para resgatar a escuta interna, para reconhecer o que se esconde por trás da performance social. É na travessia desse silêncio psíquico que o sujeito pode, enfim, encontrar sua própria voz — não aquela que busca aprovação externa, mas aquela que se reconcilia com seu desejo mais íntimo.
Em tempos de hiperconexão, talvez o verdadeiro gesto revolucionário seja, justamente, pausar. Ouvir. Sentir. Permitir-se ser.

