Por que repito sempre os mesmos erros?
Um olhar psicanalítico sobre a repetição
Por Daniel Nascimento - Psicólogo CRP 03/32350
Você já se pegou dizendo a frase: "De novo, isso?" ou "Por que eu sempre caio nas mesmas armadilhas?" Seja no amor, no trabalho ou nas amizades, muitas pessoas vivem experiências que parecem se repetir como se estivessem presas em um ciclo sem fim. Mas o que a psicanálise tem a dizer sobre isso?
Sigmund Freud, o pai da psicanálise, nos apresenta o conceito de compulsão à repetição, uma tendência inconsciente de reviver situações dolorosas ou frustrantes, mesmo que de forma disfarçada. É como se o sujeito insistisse em refazer um roteiro antigo, na tentativa inconsciente de mudar o final — mesmo que isso quase nunca aconteça.
Na prática, isso pode aparecer de diversas formas: escolher parceiros(as) parecidos(as), entrar repetidamente em empregos que sufocam, manter amizades abusivas, sabotar projetos pessoais. A repetição, nesse contexto, não é apenas um erro: é um sintoma. Um sintoma que fala sobre desejos não reconhecidos, feridas não curadas e histórias que não foram simbolizadas.
Para a psicanálise, o sujeito não repete por acaso. Repete porque, de algum modo, algo insiste em retornar. Lacan complementa essa ideia ao dizer que há uma estrutura no sujeito que se organiza a partir da linguagem e que tende a girar em torno do mesmo ponto de gozo, ainda que isso traga sofrimento. Repetimos, muitas vezes, para sustentar uma identidade inconsciente, mesmo que ela nos aprisione.
A escuta analítica permite que o sujeito vá aos poucos reconhecendo esses roteiros repetitivos. Ao falar livremente, sem censura, ele pode se dar conta de padrões que antes pareciam apenas "azar" ou "falta de sorte". Com o tempo, a repetição deixa de ser destino e passa a ser matéria de elaboração.
Por isso, quando você se pergunta “por que repito sempre os mesmos erros?”, talvez seja a hora de mudar a pergunta para: O que essa repetição está tentando me dizer? E a psicanálise está aqui para escutar.

