Por Daniel Nascimento - psicólogo CRP 03 32350.
Você já ouviu falar na “castração de Freud”? A palavra assusta, incomoda e até causa certo riso nervoso em quem ouve pela primeira vez. Mas será que Freud falava mesmo de mutilação física? Ou será que por trás dessa polêmica existe algo muito mais profundo e revelador sobre quem somos?
O que Freud quis dizer com “castração”?
Antes de mais nada, precisamos fazer uma distinção: castração, na psicanálise, não é uma cirurgia, é uma ideia. É uma representação simbólica da perda — da impossibilidade de ter tudo, de ser tudo, de satisfazer todos os desejos.
Afinal, o que uma criança aprende quando percebe que não pode dormir com a mãe ou que o pai tem outros interesses além dela?
É nesse ponto que nasce o conceito de castração: o momento em que o sujeito se depara com um limite. Um "não" que vem de fora — da cultura, da linguagem, da moral.
A castração é só para meninos?
Outro erro comum é pensar que só os meninos "sofrem" com essa castração. Na verdade, Freud apresenta o Complexo de Castração como um processo que atravessa tanto meninos quanto meninas, mas de formas diferentes. É nesse momento que o sujeito se insere de vez na cultura, na lei, na ordem simbólica — perdendo algo, mas ganhando lugar no mundo.
E é aí que entra a grande pergunta: será que é possível viver sem essa perda? Sem esse corte simbólico?
Spoiler: Não. Mas o modo como lidamos com essa castração determina muito da nossa saúde psíquica.
Por que isso ainda incomoda tanta gente?
Porque tocar no tema da castração é tocar no nosso ego, no nosso desejo de sermos completos, invulneráveis, perfeitos. A castração nos lembra que não somos deuses. Que há falhas, faltas e limites — e isso pode ser libertador ou paralisante, dependendo do nosso nível de elaboração psíquica.
Quantas vezes você já se viu repetindo padrões destrutivos, buscando no outro algo que parece sempre faltar em você?
Castração: punição ou possibilidade?
Ao contrário do que muitos pensam, a castração não é castigo, mas abertura. Abertura para o desejo, para a criatividade, para a ética. Só quem reconhece sua falta pode desejar de verdade. E só quem deseja pode viver plenamente.
A tal “castração de Freud” não é uma polêmica banal. É um convite. Um chamado à maturidade psíquica. Um lembrete de que crescer dói, mas também liberta.
Você está disposto a encarar sua falta? Ou vai seguir vivendo atrás de fantasias de completude?
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