Mães de Bebês Reborn: Uma Escuta que Vai Além do Julgamento
Por Daniel Nascimento psicólogo e psicanalista crp 03 32350.
Em uma sociedade que valoriza a produtividade, a objetividade e o que é "útil" aos olhos externos, experiências emocionais mais delicadas muitas vezes são negligenciadas — ou pior, ridicularizadas. Entre essas experiências, está o vínculo que algumas mulheres desenvolvem com os chamados bebês reborn — bonecos hiper-realistas que reproduzem com detalhes a aparência de um recém-nascido.
Para quem observa de fora, pode parecer apenas uma excentricidade ou um hobby. No entanto, para muitas mulheres, especialmente mães enlutadas, mulheres em sofrimento psíquico ou em busca de um espaço afetivo para acolher suas dores, esses bebês representam mais do que objetos — são símbolos de perdas, afetos, reparações emocionais e até mesmo reorganizações internas. É nesse contexto que a psicoterapia se apresenta não como um espaço de julgamento, mas como um lugar de acolhimento, escuta e elaboração. A mulher que encontra conforto, sentido ou expressão emocional por meio do cuidado com um bebê reborn merece ser escutada com a mesma seriedade e respeito que qualquer outro sujeito em sofrimento psíquico.
Muitas vezes, essas mulheres enfrentam críticas da sociedade, de familiares ou até mesmo do sistema de saúde, sendo rotuladas como frágeis, infantis ou "fora da realidade". No entanto, o trabalho psicoterapêutico reconhece que o sofrimento não precisa ser validado por parâmetros externos para ser legítimo. O que importa é o que aquela experiência representa para aquela pessoa, naquele momento de sua vida.
Ao longo do processo terapêutico, é possível compreender as camadas mais profundas dessa relação: a dor de uma perda gestacional, a solidão da maternidade, a ausência de acolhimento afetivo na infância, ou até mesmo o desejo de construir uma narrativa reparadora sobre si mesma. Tudo isso pode emergir nas sessões, sempre sob o olhar respeitoso e ético do profissional de saúde mental. Por isso, mais do que tratar a mulher que cuida de um bebê reborn como uma “paciente curiosa”, é preciso enxergá-la como uma mulher em processo, que busca sentido, cuidado e escuta em um mundo que muitas vezes silencia. A psicoterapia, nesse caso, é uma ponte entre o simbólico e o real — entre a dor e a possibilidade de reconstrução.
Que possamos como sociedade ampliar nosso olhar e, como profissionais da saúde mental, continuar a oferecer escuta genuína e livre de preconceitos. Afinal, cuidar da saúde emocional é, acima de tudo, um ato de humanidade.

