O mundo adoece quando tudo vira doença: a patologização da vida e o silêncio técnico dos profissionais da saúde
Por Daniel Nascimento, psicólogo e psicanalista
Vivemos um tempo em que tudo parece ter nome, código e diagnóstico. A tristeza é rapidamente confundida com depressão, a timidez vira fobia social, a inquietação se chama TDAH, e a dificuldade de se adaptar à dureza da realidade é rotulada como transtorno. O fenômeno da patologização da vida cotidiana está cada vez mais evidente — e alarmante.
É claro que os transtornos mentais existem e merecem atenção e cuidado. Mas o problema começa quando experiências humanas comuns são enquadradas como doenças sem uma escuta cuidadosa e sem a devida consideração pelas singularidades de cada sujeito. Transformar sentimentos naturais em diagnósticos prontos cria uma cultura de medicalização excessiva, de silenciamento da dor e de distanciamento da responsabilidade subjetiva.
Ao lado disso, assistimos a um segundo fenômeno tão preocupante quanto o primeiro: a crescente incapacidade de muitos profissionais da saúde em se comunicarem de forma clara com a população. Um vocabulário hermético, cheio de termos técnicos, que mais confunde do que orienta, tem dominado o discurso clínico. Enquanto o sofrimento se amplia, a escuta se torna cada vez mais rarefeita — substituída por protocolos, escalas e fórmulas prontas.
Essa combinação entre a patologização da vida e a falta de comunicação acessível está gerando um efeito perverso: mais pessoas adoecidas, mais confusão sobre o que estão vivendo e menos acesso a espaços de elaboração e cuidado genuíno.
Como psicanalista, defendo a importância da escuta singular. Cada sujeito carrega sua história, sua dor e sua forma única de lidar com o mundo. Não somos feitos para caber em rótulos, muito menos para sermos silenciados por discursos que, ao invés de acolher, afastam.
É urgente resgatar a linguagem humana no cuidado em saúde mental. É urgente que profissionais saiam das bolhas técnicas e dialoguem com a sociedade de forma empática, ética e clara. Não para banalizar os saberes, mas para devolver às pessoas a chance de se reconhecerem — para além dos diagnósticos — como sujeitos.
A psicanálise nos ensina que o sintoma fala, e que escutá-lo é mais potente do que rotulá-lo. Escutar é o primeiro passo para cuidar. E talvez seja justamente isso que esteja faltando hoje: escuta.

