Por Daniel Nascimento – Psicólogo
Lançada em 2025 pela Netflix, a série Adolescência tem chamado atenção por sua abordagem intensa e sensível das dores, conflitos e descobertas que marcam a fase juvenil. A produção acompanha um grupo de adolescentes de diferentes origens sociais, vivendo experiências de amor, perda, violência, exclusão e busca por pertencimento, em um cenário urbano que mistura escola, família e redes sociais. Com uma linguagem crua e, ao mesmo tempo, poética, a série não entrega respostas prontas — pelo contrário, expõe feridas abertas e convida o público a refletir sobre a saúde mental dos jovens no mundo contemporâneo.
Sob o olhar da psicanálise, especialmente à luz dos conceitos de Donald Winnicott, Adolescência revela-se um verdadeiro campo de observação sobre os processos de amadurecimento emocional e os impactos do ambiente no desenvolvimento da identidade. Para Winnicott, o adolescente precisa atravessar uma espécie de "colapso criativo" — um momento em que velhas referências deixam de fazer sentido e ainda não há estrutura interna suficiente para novas construções sólidas. Trata-se de uma travessia entre o conhecido da infância e o desconhecido da vida adulta.
Na série, vemos como essa travessia se torna ainda mais arriscada quando os jovens não encontram um "ambiente suficientemente bom" — expressão que Winnicott usava para descrever uma rede de cuidado e apoio que sustenta o crescimento emocional. Falta escuta, falta presença, falta espaço para errar sem ser punido. Em vez disso, há pais ausentes, instituições rígidas e um mundo digital onde a performance substitui a espontaneidade.
Os personagens de Adolescência encarnam o que Winnicott chamou de falso self: um modo de ser moldado para atender às expectativas externas, mesmo que isso custe a autenticidade e o contato com o verdadeiro self. São jovens que aparentam estar bem, que seguem as normas, mas que por dentro estão fragmentados, sozinhos, angustiados.
Mais do que uma obra de entretenimento, a série funciona como um espelho do nosso tempo — um tempo em que muitos adolescentes estão gritando silenciosamente por cuidado, pertencimento e espaço para existir sem máscaras. Winnicott nos lembra que a saúde emocional não nasce da perfeição, mas da possibilidade de ser acolhido em sua vulnerabilidade.
Como sociedade, e especialmente como profissionais da saúde mental, precisamos nos perguntar: estamos oferecendo esse ambiente suficientemente bom? Ou estamos contribuindo, mesmo que inconscientemente, para o colapso silencioso de uma geração?

