A lógica eugenista por trás das campanhas de aborto: uma crítica necessária
Por Daniel Nascimento – Psicólogo Psicanalista, Formação Técnica em Nutrição e Dietética, estudante de Biotecnologia (UFBA)
Como homem negro, psicólogo e pesquisador em formação na área de biotecnologia, tenho refletido profundamente sobre o avanço silencioso de uma lógica que, disfarçada de progresso e liberdade, perpetua estruturas de exclusão social e racial. Refiro-me às campanhas de legalização ampla e irrestrita do aborto, muitas vezes vendidas como um direito feminino, mas que, ao analisarmos com mais rigor histórico, científico e ético, revelam nuances eugenistas preocupantes.
A eugenia, lembramos, foi uma ideologia racista que ganhou força no século XX, promovendo a ideia de "melhorar" geneticamente a população por meio do controle reprodutivo, sobretudo de pobres, negros, deficientes e outros grupos considerados "indesejáveis". Essa prática não desapareceu — apenas mudou de roupa. Hoje, quando se defende o aborto como solução para a pobreza, para deficiências genéticas, ou como alternativa para mães jovens em comunidades periféricas, reforça-se a mesma lógica: a de que certas vidas são menos dignas de nascer.
A psicologia nos ensina que o valor da vida não está apenas nas condições externas que a cercam, mas na capacidade de transformar a dor em resistência, e a história da população negra brasileira é a maior prova disso. Quando se propaga a ideia de que crianças em situação de vulnerabilidade nascerão “para sofrer” e por isso devem ser abortadas, está se reafirmando, ainda que veladamente, um pacto com a eliminação do outro, não com sua proteção.
Como técnico em nutrição, por formação, e graduando de biotecnologia, também enxergo o risco bioético envolvido em campanhas que naturalizam o descarte de vidas em formação, como se fossem produtos defeituosos de um sistema reprodutivo. A biotecnologia caminha para avanços incríveis no cuidado e prevenção de doenças, mas não pode ser usada como instrumento para selecionar quem deve ou não viver.
Ser pró-vida não é ser contra as mulheres — é ser contra um sistema que oferece o aborto como única resposta para a falta de políticas públicas de acolhimento, educação sexual, saúde mental, rede de apoio e justiça social. Defender a vida desde a concepção é, para mim, uma forma de resistência negra, ética e humanista contra o avanço de uma cultura de descarte.
O debate precisa ir além dos slogans e se aprofundar nas consequências sociais, éticas e históricas das escolhas que fazemos como sociedade. Nem toda campanha é libertadora — algumas apenas maquiam antigas formas de opressão com discursos modernos. Precisamos estar atentos.

