Por Daniel Nascimento – Psicólogo | Psicanalista | @psi_danielnascimento
O luto é uma experiência universal e, ao mesmo tempo, absolutamente singular. Todos nós, em algum momento da vida, seremos atravessados por perdas – sejam elas de pessoas queridas, de relacionamentos, de sonhos ou até mesmo de fases importantes. No entanto, cada sujeito lida com o luto de uma forma muito própria, marcada por sua história, estrutura psíquica e pelas relações inconscientes que carrega.
Na psicanálise, o luto é compreendido como um processo necessário e inevitável diante da perda de um objeto amado. Sigmund Freud, em seu texto clássico Luto e Melancolia (1917), diferencia o luto saudável da melancolia patológica. Enquanto no luto o sujeito reconhece a perda e, com o tempo, elabora essa ausência, na melancolia há uma identificação inconsciente com o objeto perdido, gerando culpa, desvalia e sofrimento profundo.
Luto é trabalho psíquico
Freud afirma que o luto exige um “trabalho” — um movimento interno de desprendimento dos investimentos libidinais feitos naquele objeto que se foi. Em outras palavras, o enlutado precisa, aos poucos, retirar a energia psíquica que havia colocado naquela pessoa ou experiência, para então poder reinvesti-la em outros vínculos, em outras vivências. Esse processo, porém, não tem prazo fixo. Cada sujeito tem seu tempo. O sofrimento não deve ser apressado, tampouco patologizado.
O silêncio da falta e a escuta possível
Muitas vezes, quem está de luto se vê rodeado por frases como “seja forte”, “você precisa seguir em frente” ou “Deus sabe o que faz”. Ainda que bem-intencionadas, essas expressões tendem a silenciar a dor legítima da perda. O enlutado precisa, antes de tudo, ser escutado — não julgado, não apressado, não empurrado. A clínica psicanalítica oferece esse lugar de escuta, onde a dor pode ser nomeada, os afetos trabalhados, e a ausência transformada em memória viva.
Quando o luto se complica
Há situações em que o luto não consegue seguir seu curso. Isso ocorre, por exemplo, quando há mortes abruptas, não simbolizadas, acompanhadas de traumas ou culpas intensas. Nessas situações, a ausência vira peso, o tempo parece congelado, e o sujeito permanece preso à dor. É aqui que a psicanálise também atua, ajudando o paciente a dar sentido à experiência, a desatar os nós inconscientes e a possibilitar, pouco a pouco, a retomada da vida.
Luto e renascimento
Elaborar um luto não é esquecer, nem substituir. É lembrar sem sangrar. É carregar a ausência como parte da história, e não como prisão. Na escuta psicanalítica, o que se busca não é eliminar a dor, mas dar-lhe um lugar simbólico. Porque é apenas quando reconhecemos o luto como parte da existência que podemos também reconhecer o amor que nos foi tirado — e isso, por si só, já é uma forma de renascer.

