A música sempre foi um espelho da cultura e um termômetro social. Filósofos como Theodor Adorno e Friedrich Nietzsche destacaram que os sons, ritmos e letras que predominam em uma época não apenas refletem a realidade, mas também moldam valores e comportamentos coletivos. No cenário atual, alguns movimentos musicais, como o “bile funk” e os “paredões”, chamam atenção por seu forte apelo popular, mas também por carregarem, em determinados contextos, mensagens que fazem apologia ao tráfico e promovem a glamorização do crime.
Essa exaltação de figuras criminosas, armas, drogas e estilos de vida associados à violência, quando repetida e consumida de forma massiva, contribui para a naturalização dessas condutas e para a construção de um imaginário social que associa poder e prestígio à criminalidade. Sob a perspectiva psicológica, é preciso compreender que a música possui um impacto profundo sobre a formação da identidade, especialmente entre jovens em situação de vulnerabilidade, influenciando escolhas, expectativas e modos de se relacionar com o mundo.
Isso não significa negar o valor cultural da música periférica ou silenciar a expressão artística de comunidades historicamente marginalizadas. Pelo contrário, é fundamental distinguir o papel de denúncia e resistência social de letras que retratam a realidade, daquelas que romantizam e legitimam práticas criminosas. A psicologia, aliada a ações educativas e culturais, pode contribuir para abrir espaços de reflexão crítica, incentivando produções musicais que expressem a potência criativa das comunidades sem reforçar ciclos de violência.
