A teoria das representações sociais nos permite compreender como imagens, narrativas e crenças são construídas e transmitidas ao longo da história, moldando a forma como uma sociedade enxerga a si mesma. No Brasil, um exemplo claro está no modo como o carnaval é narrado e vivido.
Desde a chegada dos portugueses, ainda no período colonial, criou-se uma representação marcada pela exploração e pela imposição de padrões culturais e sexuais. Os relatos históricos, muitas vezes escritos pelos colonizadores, descreviam os povos indígenas como polígamos, reduzindo-os a estereótipos e naturalizando a ideia de que “dividiam suas mulheres” com os estrangeiros. Essa narrativa, carregada de distorções, servia para legitimar a violência sexual contra as indígenas, invisibilizando a dor e a opressão a que eram submetidas.
Essas representações, construídas e reforçadas ao longo dos séculos, ainda ecoam na forma como o corpo — especialmente o corpo feminino — é explorado e exposto nas festas populares, em especial no carnaval. Se antes a justificativa estava na suposta “liberdade sexual” indígena, hoje se vê a mesma lógica em discursos que associam a festa exclusivamente à permissividade, ao excesso e à objetificação.
Esse mesmo fenômeno pode ser observado nas festas contemporâneas, como os paredões e os bailes funk. Embora sejam manifestações culturais legítimas das periferias, espaços de resistência e sociabilidade, também sofrem com a representação social que reduz suas expressões à violência, ao tráfico e à hipersexualização dos corpos. Tal como ocorreu na narrativa colonial sobre os indígenas, essas festas são vistas por um viés que reforça estigmas, invisibilizando sua potência cultural e comunitária.
O carnaval, os paredões e o baile funk são expressões populares de identidade e pertencimento, mas frequentemente capturados por uma lógica que repete padrões coloniais de exploração. A crítica que se impõe é a necessidade de romper com essas representações sociais que perpetuam desigualdades de gênero, classe e raça, reconhecendo que por trás da folia e do som alto também há história, resistência e dignidade.
Refletir sobre essas manifestações é compreender que elas não devem ser reduzidas a estereótipos herdados do período colonial, mas ressignificadas como espaços de celebração da diversidade, da cultura e da vida em comunidade.
